Cair para cima
Nunca pensei que uma metáfora fosse roubar tanto minha atenção. No dia 20 de março de 2024, Eduardo Sterblitch (icone) participou do podcast “PodPah” e falou uma frase que robou a atenção da bolha em que faço parte na internet. Ele diz
“O processo da vida é uma provação do #@$@; A sua vida não é só sucesso, sucesso […] às vezes você ‘tá caindo, mas ‘tá caindo pra cima […] faz parte do roteiro de Deus”
A minha reação inicial ao ouvir “cair para cima” foi tentar usar minha soberba para pensar, “que coisa idiota, como que uma pessoa cai para cima”. Porém, a última parte da fala do Eduardo me fez lembrar como Deus age;
“faz parte do roteiro de Deus”.
Todos nós crescemos acreditando que temos algo de especial, a religião reforça essa visão qundo diz que Deus tem um plano único e especial para cada um de nós. Eu realmente acredito nesse plano, não gosto da ideia de que não existe propósito para cada um de nós; propósitos únicos. Mas com o tempo fui entendendo que acreditar em propósito não é o mesmo que acreditar em conforto. O plano de Deus raramente se apresenta de forma clara, organizada ou gentil. Na maioria das vezes, ele chega disfarçado de confusão.
A gente cresce achando que propósito combina com sucesso, com portas se abrindo, com aplauso. Mas a vida real costuma ensinar o contrário. Os momentos em que mais aprendi sobre mim mesmo não vieram quando tudo estava dando certo, vieram quando eu me senti perdido, pequeno, sem controle da situação. Quando parecia que eu estava regredindo, na verdade algo estava sendo desmontado dentro de mim.
Hoje consigo enxergar que algumas quedas não foram erros de percurso, foram correções. Doeram porque mexeram com o ego, com expectativas, com versões de mim que já não se sustentavam mais. Na época, a sensação era de fracasso. Agora, olhando de fora, parece mais um empurrão desses que a gente não pede, mas precisa.
Talvez seja isso que significa “cair para cima”. Não é romantizar a dor, nem fingir que sofrimento é bonito. É entender que nem toda queda é punição. Algumas são passagem. Algumas são a única forma de sair de lugares onde a gente estava confortável demais para mudar.
Quando tudo desmorona, a primeira pergunta costuma ser “por quê?”. Mas com o tempo, outra pergunta surge, mais silenciosa e mais honesta: “pra quê?”. E nem sempre a resposta vem rápido. Às vezes ela só aparece meses depois, quando percebemos que aquela versão antiga de nós já não teria espaço na vida que estamos construindo agora.
Se faz parte do roteiro de Deus, como disse o Eduardo, então talvez o roteiro não seja linear. Talvez ele tenha capítulos confusos, páginas rasgadas, diálogos que não fazem sentido na hora. E talvez confiar nesse roteiro não seja sobre entender tudo, mas sobre continuar caminhando mesmo sem entender. No fim, cair para cima é aceitar que nem toda perda é o fim. Algumas são o começo de algo que só poderia nascer depois que tudo aquilo caiu.
Escrito com a alma e a tinta do coração
Felipe Castro
3 de fevereiro de 2026